Isto começou por causa do meu filho.
Ele ainda é bebé, ainda não percebe nada disto, mas eu já ando com a ideia na cabeça há meses: quero deixar-lhe alguma coisa construída. Não uma fortuna. Só um bolo com algum peso para quando ele tiver 18 ou 20 anos e precisar de uma ajuda para os estudos, para um carro, para o primeiro passo na vida dele.
Então comecei a fazer contas. E aconteceu uma coisa que eu não estava à espera.
Ao estudar onde é que havia de meter o dinheiro dele, percebi que o problema maior não era o futuro do meu filho. Era o meu.
Porque o sistema de reformas em Portugal está tudo menos seguro. E se eu não fizer nada, o mais provável é que daqui a uns anos seja ele a ter de me sustentar a mim.
Por isso este artigo acabou por ficar sobre as duas coisas ao mesmo tempo. A poupança dele e a minha reforma. Porque, no fim, a solução que estou a estudar é exatamente a mesma.
Antes de continuares
Eu não sou consultor financeiro. Isto é o que eu ando a estudar e o que eu penso fazer com o meu próprio dinheiro. Não é recomendação de investimento. Faz sempre as tuas contas.
Porque é que a tua reforma não vai chegar
O que devia acontecer era eu garantir a minha reforma com os impostos que desconto. A verdade é outra. Aquilo que desconto hoje está a pagar a reforma dos meus pais e dos meus avós.
Quando chegar a minha vez, vou depender dos descontos de outras pessoas e da gestão que o Estado fizer. Ou seja, vou depender do meu filho e da geração dele.
Por mais que o governo venha a público dizer que estamos numa das melhores posições da Europa, a lógica não mostra isso e os números não enganam:
- Temos uma população a envelhecer
- Os jovens entram cada vez mais tarde no mercado de trabalho
- A taxa de natalidade está abaixo de 2,1 filhos por mulher, que é o mínimo para haver substituição de gerações
E agora o número que dói: prevê-se que em 2050 a reforma valha 37% do último ordenado. Quem hoje tem a sorte de ganhar 1.500 €, passa a receber 555 €.
Enquanto o governo continuar a negar fazer a reforma que a Segurança Social precisa, é mais do que imperativo que cada um de nós se proteja. Como? Investindo.
O que é que eu ando à procura
Seja para o meu filho, seja para mim, o que eu quero é a mesma coisa: meter um valor pequeno todos os meses e deixar o tempo trabalhar.
Só que esse investimento tem de cumprir quatro coisas:
- Ser seguro e estável
- Ter risco controlado
- Ter uma tendência de crescimento razoável
- Ter custos baixos
Quando estas são as exigências, aparecem sempre dois nomes: ETFs e PPR.
Foram estas as duas hipóteses que fui estudar. Vou-te mostrar as duas.
Hipótese 1: o ETF
Um ETF não é mais do que um fundo de investimento que junta centenas ou milhares de ativos num único produto.
Em vez de comprares ações de 500 empresas, uma de cada vez, compras o ETF. Ele faz o mesmo trabalho, num só investimento.
Isto é excelente nem que seja pela proteção que dá contra o risco de mercado. Comprar uma ação da Coca-Cola pode ser arriscado, porque do nada aparece alguém a dizer para bebermos água e aquilo cai. Comprar uma cesta que tem a Coca-Cola e mais 499 empresas é bem melhor: se uma perde valor, as outras sustentam o investimento.
Existem vários tipos de ETF. Nem todos seguem empresas. Uns seguem o valor do ouro ou do petróleo. Outros seguem criptomoedas, como a Bitcoin.
O que tens de reter é isto: um ETF é um fundo que acompanha o desempenho de um índice, obrigação ou conjunto de produtos.
Como é que eu escolhi o meu
Aqui a ideia é não inventar. O que eu procurei foi:
- Rentabilidade média anual entre 8% e 10%
- Custos de manutenção baixos, de preferência abaixo de 0,20%
- Muitas empresas lá dentro, para diluir o risco
- Acumulação de dividendos (já explico porquê)
Não me faz sentido nenhum investir num ETF que tenha só 10 ações. Se uma desliza, o fundo desliza atrás. Também não faz sentido pagar mais de 1% por ano de custos. E muito menos acreditar em rentabilidades irrealistas.
O que me convenceu foi o SXR8, o iShares Core S&P 500 UCITS ETF (Acc). Segue o S&P 500, o índice das 500 maiores empresas cotadas dos Estados Unidos.
- Taxa de manutenção: 0,07% ao ano
- Rentabilidade média histórica do índice: cerca de 10% ao ano no longo prazo
- Acumula os dividendos automaticamente
- Encontras em corretoras como Trade Republic, XTB, DEGIRO ou Interactive Brokers
Obviamente que tem riscos, porque investir envolve isso mesmo. E não me esqueço da pior desvantagem dos ETFs: para teres resultados evidentes tens de esperar bastante tempo e aguentar as quedas pelo caminho.
Só que quando o dinheiro é para um miúdo de colo, o tempo é precisamente a única coisa que sobra.
As contas que eu fiz para o meu filho
Isto é uma previsão, não uma garantia. Estamos a usar resultados passados para prever o futuro, o que não é um princípio correto. Mas serve para perceberes a ordem de grandeza.
Assumi um crescimento anual de 10,8% e custos de 0,07%, que é o histórico do índice.
| Quanto metes por mês | Saiu do teu bolso | Valor aos 18 anos |
|---|---|---|
| 25 € | 5.400 € | ~16.500 € |
| 50 € | 10.800 € | ~32.900 € |
| 100 € | 21.600 € | ~65.800 € |
Olha bem para a linha do meio. 50 € por mês, o valor de um jantar fora, transformam-se em quase 33.000 € quando ele fizer 18 anos. E só 10.800 € é que saíram do meu bolso. O resto foi o tempo a trabalhar.
É um número tão grande que até parece mal.
Agora a mesma lógica aplicada a mim. Imagina que alguém com 30 anos começa a meter 100 € por mês e para aos 60:
| Parcela | Valor |
|---|---|
| Saiu do teu bolso | 36.000 € |
| Juros gerados | ~232.000 € |
| Total bruto | ~268.000 € |
O truque é sempre o mesmo: no curto prazo os retornos não parecem grande coisa. Mas quando dás tempo ao tempo, o juro composto começa a dar muita força. Quanto mais te afastas do ano zero, maiores são os retornos.
O que isto me ensinou: o que faz a diferença não é o valor que metes. É há quanto tempo o metes. Se forem 10 € por mês, é sempre melhor do que zero.
Os impostos dos ETFs em Portugal
Chegamos à parte chata, mas que tem mesmo de ser.
Quando fizeres o levantamento, tens mesmo de dizer ao Estado quanto é que ganhaste. Senão podes ter problemas.
Em Portugal os ETFs são tributados como mais-valias. Pegas no dinheiro que ganhaste, tiras o dinheiro que investiste do teu bolso, e é sobre essa diferença que incidem os impostos.
A taxa base é 28%. Mas à medida que manténs o investimento mais tempo, é-te aplicado um desconto:
| Tempo que manténs o investimento | Taxa efetiva |
|---|---|
| Menos de 2 anos | 28% |
| Entre 2 e 5 anos | 25,2% |
| Entre 5 e 8 anos | 22,4% |
| Mais de 8 anos | 19,6% |
Quem investe a pensar em 18 ou 30 anos cai sempre no último escalão. 19,6%, um desconto de 30% face à taxa cheia.
Acumulativo ou distributivo
Isto é importante e muita gente ignora.
Os dividendos que as empresas do teu ETF distribuem ou são aplicados diretamente ao valor do fundo — e estamos a falar de um ETF acumulativo — ou são entregues a ti separadamente — e aí é um ETF distributivo.
Se os receberes separadamente, tens de os declarar na altura em que os recebes. Sempre a 28%, sem qualquer desconto.
Nos acumulativos podes estar tranquilo. Só quando fizeres o levantamento é que te preocupas.
Dica: vê pelo nome do ETF. Se tiver Acc ou Dist, sabes logo qual é.
Para este objetivo, o acumulativo é o caminho. O SXR8 é acumulativo.
Hipótese 2: o PPR
PPR significa Plano Poupança Reforma.
É um instrumento financeiro onde o dinheiro é aplicado em diferentes ativos, como ações ou obrigações. O tipo de ativo depende muito do PPR que escolheres.
A principal vantagem são os benefícios fiscais:
- Podes deduzir à coleta no IRS 20% do valor aplicado, com limites por idade: até 400 € por ano com menos de 35 anos, até 350 € dos 35 aos 50, e até 300 € a partir daí
- Os ganhos podem ser tributados a apenas 8% se mantiveres o investimento mais de 8 anos e resgatares dentro das condições previstas na lei
Porque é que eu não fiquei convencido
Vou ser o mais cordial possível contigo: eu não sou grande fã de PPR.
As vantagens que apresentam face aos ETFs são claramente eliminadas pelas nuances e burocracias que trazem atrás.
- Esquece retornos iguais aos ETFs. Mesmo os PPR mais arriscados andam nas casas dos 5% a 8%
- As taxas de gestão são exageradas, muitas vezes acima de 1%
- Existe quase sempre uma comissão de subscrição, tanto no capital inicial como em todos os reforços
- Se precisares do dinheiro antes de 5 anos sem justificação prevista na lei, devolves tudo o que deduziste mais 10% por cada ano
Ou seja, tudo aquilo que o ETF tem de bom, os PPR ignoram. E a única coisa que destacam são as vantagens fiscais.
E isto é óbvio para todos: ser tributado a 8% em vez de 19,6% é incrível. Mas se o valor sobre o qual és tributado também é substancialmente menor, não me parece uma troca justa.
É uma camada de burocracia com que quem começa a investir agora não quer lidar. Por isso não, eu não invisto em nenhum PPR atualmente.
Sendo justo: as vantagens dos PPR podem ser muito bem aproveitadas em casos específicos. Se pagas muito IRS e consegues usar a dedução todos os anos, ou se queres menos volatilidade e não te importas de abdicar de rentabilidade, faz sentido. Já existem também PPR sob a forma de fundos, com comissões mais baixas e mais exposição a ações. Mas continuas a ter de comparar comissões com muita atenção.
ETF ou PPR: a comparação direta
| Critério | ETF (ex.: SXR8) | PPR |
|---|---|---|
| Rentabilidade média anual | 8% a 10% | 5% a 8% |
| Custos anuais | 0,07% a 0,20% | Frequentemente acima de 1% |
| Comissão de subscrição | Não | Quase sempre |
| Imposto sobre ganhos (8+ anos) | 19,6% | 8% |
| Dedução no IRS | Não | Até 400 €/ano |
| Liquidez | Vendes quando quiseres | Penalizações se resgatares cedo |
| Melhor para | Quem quer simplicidade e retorno máximo | Quem paga muito IRS e quer a dedução |
Um pormenor importante se a poupança for para um filho
Aqui há uma coisa prática que me deu trabalho a perceber.
Um menor não abre conta numa corretora sozinho. Na prática tens duas formas de fazer isto:
- A conta fica em teu nome e tu é que geres. É o mais simples e o mais flexível. Quando ele tiver idade, transferes-lhe o dinheiro. A desvantagem é que legalmente o dinheiro é teu, com tudo o que isso implica em impostos e em partilhas
- Subscreves um PPR em nome dele. Muitos PPR aceitam menores como titulares, com os pais como representantes. Ganha-se em segurança jurídica, perde-se em rentabilidade
No meu caso, a decisão está quase tomada. Vou manter a conta em meu nome, com uma posição separada e identificada como sendo dele, e o dinheiro é entregue quando fizer sentido. Prefiro a rentabilidade e a flexibilidade a ter aquilo trancado num produto que rende menos e cobra mais.
Há ainda uma vantagem que se ignora: se a conta é minha e um dia eu precisar mesmo, aquilo também me serve a mim. É a tal história de o mesmo investimento resolver os dois problemas.
A minha previsão sobre os impostos
Isto é a minha forma de ver as coisas, e gostava de saber a tua opinião nos comentários.
O governo continua amorrado em relação a uma reforma na Segurança Social. O que significa que nos próximos 20 ou 30 anos o mais provável é ela colapsar. E se a Segurança Social colapsa, as nossas reformas colapsam com ela.
Uma das medidas que o Estado pode tomar é reduzir drasticamente o imposto sobre investimentos de longo prazo, tipo 15 ou 20 anos. Já aconteceu em 2023, quando criaram o desconto progressivo nas mais-valias. Nada impede que volte a acontecer.
Por isso eu acho mesmo possível que, quando chegar a altura, o meu investimento venha para a minha carteira com 0% de imposto ou com um valor muito baixo. Ou seja, a única desvantagem real dos ETFs pode muito bem ser reduzida.
Concordas comigo ou achas que estou completamente maluco?
Como eu estou a organizar isto, em 5 passos
- Definir um valor mensal que consiga manter sem esforço durante anos, nem que sejam 25 €
- Abrir conta numa corretora com custos baixos e acesso a ETFs UCITS
- Escolher um ETF acumulativo, diversificado e barato — o SXR8 ou um ETF de ações mundiais
- Automatizar a compra todos os meses e não mexer nos anos maus
- Declarar as mais-valias só quando vender, e vender depois dos 8 anos para pagar 19,6%
Perguntas frequentes
Qual é a melhor forma de criar uma poupança para um filho?
Depende do prazo. Se o miúdo é pequeno e falamos de 15 ou 18 anos, um ETF acumulativo de índice amplo tende a render bastante mais do que uma conta poupança ou um PPR. Se queres segurança jurídica com o dinheiro em nome dele, um PPR de menores resolve isso, mas rende menos e cobra mais comissões.
Um menor pode ter ETFs em Portugal?
Na prática, as corretoras não abrem conta a menores. A solução habitual é o pai ou a mãe manterem a conta em nome próprio e transferirem o valor mais tarde. Em alternativa, há PPR que aceitam menores como titulares, com os pais como representantes legais.
Quanto devo poupar por mês?
Não há número mágico. O importante é ser um valor que consigas manter todos os meses durante muitos anos sem interromper. 25 € por mês durante 18 anos podem valer cerca de 16.500 €. O tempo pesa mais do que o valor.
É melhor ETF ou PPR?
Para a maioria das pessoas, o ETF. Tem rentabilidade mais alta, custos muito mais baixos e nenhuma burocracia. O PPR só compensa se pagares IRS suficiente para aproveitares a dedução de até 400 € todos os anos e quiseres menos volatilidade.
Quanto pago de impostos ao vender um ETF?
28% sobre as mais-valias, com desconto progressivo consoante o tempo de detenção. A partir de 8 anos a taxa efetiva desce para 19,6%.
Resumo
- Comecei isto a pensar no meu filho e percebi que o problema da minha própria reforma é ainda maior
- A reforma que o Estado vai pagar não chega. Prevê-se 37% do último ordenado em 2050
- ETF: mais rentabilidade, custos mínimos, simplicidade. 19,6% de imposto após 8 anos
- PPR: dedução no IRS e 8% de imposto, mas rentabilidade baixa, comissões altas e burocracia a mais
- 50 € por mês desde que um filho nasce podem valer cerca de 33.000 € aos 18 anos
- A minha escolha vai para o ETF acumulativo, com a conta em meu nome
Se já começaste a trabalhar, ou se tens um filho pequeno em casa, isto era o que já devias estar a fazer. Eu demorei demasiado tempo a perceber.
Aviso: este artigo é informativo e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidades passadas não garantem rentabilidades futuras. Avalia sempre o teu perfil de risco antes de investires.
Parte dos dados e das simulações deste artigo foram inspirados num vídeo do Martim Paulo sobre o tema.