Em resumo: não. O vídeo que circulou em setembro de 2019 a dizer que os refugiados em Portugal recebem milhares de euros em subsídios foi analisado pelo MediaLab do ISCTE e classificado como falso. Cada pessoa em proteção internacional sem meios próprios recebe cerca de 150 euros por mês, segundo o Conselho Português para os Refugiados, citado pelo Polígrafo.
Em setembro de 2019 andou pelas redes sociais um vídeo assinado por uma página chamada “Republica Dos Bananas”. Falava em 20 mil euros de subsídios para refugiados, em dívidas por pagar e em famílias que se recusavam a trabalhar. Entretanto o vídeo saiu do YouTube, mas as mesmas ideias continuam a aparecer em partilhas e comentários.
Por isso vale a pena pôr os números no sítio.
O que concluiu o MediaLab do ISCTE
O MediaLab do ISCTE-IUL, que em 2019 acompanhava a desinformação política nas redes sociais, analisou o vídeo na semana de 22 a 28 de setembro de 2019. Conclusão: falso e sem fundamento. A análise dividia o vídeo em duas partes.
- A primeira era uma montagem de imagens e memes com comentário em áudio, a sugerir ligações entre refugiados, vandalismo e terrorismo, com dados estatísticos desatualizados e errados. Um exemplo: dizia que Portugal era o país da União Europeia com mais pessoas no limiar da pobreza, quando nos dados de 2017 havia pelo menos quatro países da UE com taxas bem mais altas.
- A segunda era uma montagem de reportagens sobre o caso de Miranda do Corvo, com texto por cima, incluindo um uso seletivo de uma reportagem da SIC Notícias.
O MediaLab reparou ainda que o logótipo do vídeo era igual ao de duas páginas brasileiras com o mesmo nome. A página portuguesa com esse nome, com só 125 gostos e outra imagem gráfica, tinha sido criada a 11 de setembro de 2019. Não se conseguiu perceber se os autores do vídeo tinham ligação às páginas brasileiras ou se copiaram simplesmente o logótipo.
Quanto recebe um refugiado em Portugal?
O vídeo repetia que cada refugiado recebe 600 euros. É mentira. Segundo o Conselho Português para os Refugiados, citado pelo Polígrafo, cada pessoa reinstalada sem meios de subsistência recebe cerca de 150 euros por mês durante o programa de acolhimento, que dura 18 meses. O valor multiplica-se pelo número de pessoas da família. Uma família de quatro recebe à volta de 600 euros no total. Não por pessoa.
Nas notícias sobre Miranda do Corvo falava-se de 500 a 600 euros, mas eram valores por agregado familiar. Logo, a frase do vídeo de que mais de dois milhões de portugueses vivem com menos do que estas famílias estava errada.
O caso de Miranda do Corvo
O caso do vídeo era de novembro de 2018, quase um ano antes. Três famílias sírias acolhidas pela Fundação ADFP em Miranda do Corvo, no distrito de Coimbra, ficaram sem água e luz quando acabou o programa de apoio, por não pagarem a renda que a fundação passou a pedir. As famílias disseram que não conseguiam trabalho nem casas mais baratas. Dias depois, a 14 de novembro de 2018, assinaram contratos de arrendamento de 340 euros por apartamento e a água voltou.
Uma história real, sim. Mas muito longe dos 20 mil euros.
E não foi o único vídeo de 2019 em que a legenda contava outra história que não a das imagens. O do drone com foguetes contra a festa dos vizinhos também era uma partida vendida como caso real. Para o outro lado da história dos refugiados, há o apelo de Salvador Sobral aos refugiados, em 2017.
Perguntas frequentes
Os refugiados recebem 600 euros por mês em Portugal?
Por pessoa, não. O apoio de base anda nos 150 euros por mês por pessoa. Os 600 euros correspondem a uma família de quatro.
Quem desmentiu o vídeo?
O MediaLab do ISCTE-IUL, na análise à desinformação de 22 a 28 de setembro de 2019. O Polígrafo também desmentiu várias vezes alegações parecidas sobre os valores pagos a refugiados.
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