Toda a gente fala da crise da habitação, mas quase ninguém mostra as contas. Vi esta entrevista do engenheiro Fernando Santo ao programa Conversa Acabada e foi das explicações mais claras que já ouvi sobre o tema. Ele pega num quadro e calcula quanto custa realmente construir um apartamento em Portugal. Depois explica o que aconteceu às construtoras, porque é que hoje quase tudo é subcontratado e porque é que prometer casas baratas é, nas palavras dele, “mentir às pessoas”. Deixo-te aqui o vídeo e, a seguir, os pontos que mais me marcaram.
Quem é o engenheiro Fernando Santo
Antes de entrarmos nas contas, convém saberes quem fala. O Fernando Santo é engenheiro civil, foi bastonário da Ordem dos Engenheiros e secretário de Estado da Administração Patrimonial e Equipamentos do Ministério da Justiça. Conhece o setor por dentro:
- trabalhou nos planos de emergência que obrigaram os bancos a vender imóveis na crise de 2010
- participou em processos de realojamento em Lisboa, como o das famílias do Martim Moniz
- aconselha investidores e há anos que escreve e fala sobre a crise da construção
Por isso, quando ele diz que as casas não vão ficar baratas, eu levo isso a sério.
Como se calcula o valor de um terreno
Um terreno não vale pelos metros quadrados que tem, mas pela área de construção acima do solo que a câmara deixa fazer. É assim que se compram e vendem terrenos.
- Terreno de 1.000 m² com índice 1 → podes construir 1.000 m²
- Com índice 0,5 → só 500 m²
- Com índice 2 → 2.000 m²
Ou seja, se de um lado da rua o PDM permite moradias (índice 0,5) e do outro prédios (índice 2), os terrenos do segundo lado valem quatro vezes mais. Para o Fernando Santo, os planos diretores municipais “não têm nada de estratégico”: são planos de distribuição de riqueza. Uma assinatura num plano cria dinheiro do nada, e é por isso que há tanta guerra para passar terrenos de rústicos a urbanos.
Ele compara-o à emissão de moeda. Portugal deixou de imprimir escudos em 2001, mas no início deste século continuou a “fabricar dinheiro” com a urbanização de terrenos.
Quanto custa construir 1 m² em Portugal
O exemplo é propositadamente otimista: um terreno a 400 €/m² de construção, já com as infraestruturas (água, esgotos, eletricidade, telecomunicações, arruamentos e passeios), que sozinhas custam 150 a 200 €/m². Hoje quase não há terrenos a este preço em Lisboa, em Cascais, na área metropolitana ou sequer no Montijo.

| Custo por m² | Com impostos |
|---|---|
| Terreno (400 € + IMT e Imposto do Selo) | 429 € |
| Construção acima do solo (1.400 € + IVA 23%) | 1.722 € |
| Caves e garagem (700 €/m² × 50% da área) | 369 € |
| Projetos, fiscalização, taxas, gestão e juros (20%) | 620 € |
| Custo total, sem lucro | 3.140 € |
| Preço de venda com 20% de margem bruta | 3.768 € |
| T2 com 80 m² úteis (100 m² brutos) | 376.820 € |
| Renda para render 4% ao ano | 1.256 €/mês |
O que está por trás de cada linha:
- Construção a 1.400 €/m²: é o mínimo com as regras europeias de eficiência energética, que obrigam o edifício a ser quase neutro em energia. Somam-se ainda os estudos ao solo para ver se precisa de ser descontaminado. “Não acredito que haja muitos a este preço”
- Caves: a garagem e as arrecadações ocupam em média metade da área acima do solo e custam 600 a 700 €/m². Não se vendem à parte: entram no preço do apartamento
- Os 20% de custos indiretos: projetos, fiscalização, ligações às redes, taxas camarárias, juros do financiamento e a equipa que gere um processo que demora muitos anos
Repara: só os custos, sem lucro, já dão 3.140 € por m². A margem de 20% é bruta, ainda antes de impostos e do risco. É por isso que ele insiste que um T2 a 376 mil € ou uma renda de 1.256 € não é especulação: “é só olharem para este quadro para perceberem a realidade versus as fantasias da ideologia”.
E se o IVA baixasse de 23% para 6%?
Neste exemplo, o preço final cairia só cerca de 10%, porque o peso maior é a construção e não o terreno. Ajuda, mas não resolve.
Nas zonas caras a conta piora:
- Terreno em Lisboa, Porto ou Cascais: 1.500 a 2.000 €/m², quatro a cinco vezes mais
- Construção: acima de 2.000 €/m²
- Custo final: perto de 5.000 €/m²
- Preço de venda com margem: 6.000 a 7.000 €/m²
A crise de 2010–2013: quem pagou a fatura
Muita gente esquece, “por razões ideológicas”, como chegámos aqui. Na crise de 2010 a 2013 pagaram:
- os promotores imobiliários que faliram
- as construtoras que desapareceram
- os proprietários, que viram o património valer muito menos
- a banca, obrigada pelo BCE a reduzir a exposição ao imobiliário à pressa
Os bancos venderam ao desbarato
Nos primeiros 10 anos do euro o dinheiro era barato e os bancos financiaram promotores a 100%. Quando o crédito parou, ninguém comprou, as obras ficaram por acabar e os construtores entregaram-nas aos bancos, que de repente passaram a “sócios” de promotores falidos.
O problema da banca, diz ele, não foram as famílias que deixaram de pagar a casa. Foram os promotores financiados a 100%. As imparidades vieram de avaliações feitas no pior momento, quando não havia crédito nem compradores.
Os planos de emergência obrigaram a vender terrenos com descontos de 40% a 50% a fundos que só tiveram de esperar. “Um terreno não é uma maçã que apodrece”: não precisava de ser vendido em 15 dias. Ele próprio esteve envolvido nesses processos.
Para ele, foi o maior erro da troika. Quem aguentou começou a vender sem perder dinheiro a partir de 2016. Bastava esperar dois anos.
Não há quem construa
Na crise houve gente que emigrou, que mudou de profissão, empresas que faliram e trabalhadores que entretanto morreram. Os números:
| Início do século | Hoje | |
|---|---|---|
| Casas novas por ano | ~125.000 (2002) | ~28.500 |
| Trabalhadores na construção | ~630.000 (2005) | 300 a 350 mil |
| Grandes construtoras | 42 (2010) | 4 a 6 |
Hoje constrói-se quase um quarto do que se construía no início do século. Em 2005 havia ainda muito investimento público, com autoestradas e obras do pós-Expo. Por isso, diz ele, prometer milhares de casas em campanhas eleitorais não passa de promessa: não há capacidade para as construir.
O fim dos “patos bravos”
Os “patos bravos” ganharam má fama, mas o Fernando Santo defende que quem os critica “não sabe do que fala”. A história:
- Eram mestres de obras vindos de Tomar no tempo de Duarte Pacheco, ministro das Obras Públicas
- Começaram no bairro de Alvalada, em terrenos do Estado leiloados na Alfândega de Lisboa
- Construíam com custos controlados porque sabiam fazer: eram pedreiros, carpinteiros, conheciam a obra
- As casas eram compradas pelas caixas de previdência para arrendar aos funcionários públicos
- Depois da morte de Duarte Pacheco, em 1943, ganharam autonomia e passaram a comprar terrenos. Benfica foi o primeiro exemplo dessa construção sem ordenamento
- Foram eles que construíram grande parte de Lisboa e das periferias até ao final dos anos 80
A grande vantagem é que promotor e construtor eram a mesma pessoa. Havia uma só margem, não duas. Hoje essa geração morreu e os filhos não quiseram continuar: “porque é que alguém se vai meter numa alhada para ainda ser acusado de especulador?”
Das “empresas ministério” à subcontratação
Esta foi uma das partes mais interessantes da entrevista. Com a falência das grandes construtoras, perdeu-se também a passagem de conhecimento dos mais velhos para os mais novos: encarregados, engenheiros, o saber fazer.
E há algo ainda mais grave. As que sobreviveram mudaram de modelo para se protegerem:
| 🏛️ “Empresa ministério” (antes) | 📋 Empresa minimalista (hoje) |
|---|---|
| Tinha tudo em casa: pedreiros, carpinteiros, serralheiros | Vive de subempreiteiros e subcontratados |
| Totalmente verticalizada, controlava a obra | Dezenas de contratos e fornecedores para gerir |
| Equipas fiéis, que passavam o saber | Subempreiteiros sem fidelização nem controlo |
O resultado é que os empreiteiros têm enorme dificuldade em gerir a cadeia de valor. Muitos engenheiros e diretores de obra estão desmotivados: “não tirei um curso para andar aqui a gerir dezenas de contratos, em vez de fazer a obra”. É por isso que engenharia civil tem dificuldade em atrair alunos.
“Se é tão bom negócio, porque não constroem mais?”
É a pergunta que ele faz a quem fala em especulação: se o negócio é tão bom, porque é que em vez de 28 mil casas não se fazem 50 mil? E porque é que, em cidades como Lisboa, os licenciamentos até caíram?
A resposta: cada vez menos gente aceita comprar um terreno a 1.500 €/m² e esperar 3 a 4 anos pela aprovação do projeto. Há investidores estrangeiros que compraram, construíram e venderam e que agora pararam. E não é culpa desta ou daquela câmara: é um problema estrutural.
Destaca uma exceção, Oeiras, onde Isaltino Morais “sabe o que faz”, como sabia João Soares quando presidiu à Câmara de Lisboa. Eram pessoas habituadas a fazer, com estruturas preparadas. Mas 20 a 25 anos sem investimento público têm um custo: as pessoas que sabiam desapareceram e a curva de aprendizagem é longa.
Reabilitação urbana: o regime que funcionava e foi revogado
Para ele, a reabilitação é uma das questões mais importantes do país e quase ninguém fala dela. Santana Lopes trouxe-a para a agenda em 2004, com as sociedades de reabilitação urbana, mas só arrancou a sério quando vieram os estrangeiros, os únicos dispostos a pagar o que ela custa: mais de 6.000 €/m².
O regime excecional de 2014
A regra era simples: um prédio com mais de 30 anos podia ser reabilitado sem cumprir todas as normas feitas depois, desde que a intervenção melhorasse o edifício. A analogia dele é com os carros: um carro de 1980 sem cinto nem airbag passa na inspeção e até pode ser registado como histórico, apesar de morrerem mais de 500 pessoas por ano nas estradas. Nas casas, não.
- Julho de 2019: o regime é revogado e tudo volta a ter de cumprir as normas atuais
- 2020: os edifícios licenciados caem 12% (INE)
- 2021: caem mais 4%
- Só agora se está a voltar aos números de 2019
“Não querer produzir um Rolls-Royce a partir de um carro de gama média”, resume. Ele próprio já aconselhou investidores que compraram prédios para reabilitar a não avançarem, depois de fazer as contas.
Burocracia e lobbies
- Património Cultural: pode parar uma obra durante dois anos. Há obras em Lisboa com paredes interiores suspensas só porque alguém decidiu que tinham de ser mantidas
- Zonas históricas: se a casa estiver numa zona classificada ou a menos de 50 metros de um edifício classificado, nem podes mexer no interior da tua fração sem autorização. Fachadas e coberturas, tudo bem; o interior é abuso
- Via pública: uma simples licença de ocupação pode demorar meses
- Lobbies: leis que nascem de diretivas de Bruxelas e do lobby do ambiente, “e a partir daí é só faturar”
- O exemplo da Gulbenkian: a obra do Centro de Arte Moderna gastou cerca de 2,5 milhões de euros só em descontaminação de solos, num sítio onde durante anos se visitaram exposições
E o Estado, dono de tanto património, deixa muito dele devoluto e abandonado.
O que podia ajudar em 1 a 2 anos
- 🏠 Arrendamento com confiança: resolver os despejos e liberalizar as rendas anteriores a 1990, para trazer casas fechadas para o mercado
- 🧱 Repor o regime excecional de reabilitação e verticalizar de novo as empresas
- 📋 Cortar burocracia no Património Cultural e nas licenças
- 👵 Um programa para os idosos com rendas antigas (ver abaixo)
Os idosos presos em casa
Para o Fernando Santo, o grupo mais vulnerável da habitação hoje são os idosos com rendas antigas. Quando arrendaram eram jovens. Hoje têm 80 ou 90 anos e vivem em 3.º e 4.º andares sem elevador, sem conseguirem sair para comprar pão. São acompanhados pela Segurança Social, pela Cruz Vermelha, por IPSS e pela câmara.
Muitas vezes o prédio está todo devoluto menos um ou dois andares, e o proprietário espera “a lei da vida” para poder fazer obras. “Não podemos dar a estas pessoas, como prémio de uma renda barata, as condições mais indignas no fim da vida.”
A proposta é um programa especial entre a Segurança Social, as famílias e os proprietários, caso a caso e por acordo, sem pôr ninguém na rua. Lembra o realojamento das famílias do Martim Moniz num prédio novo em Telheiras, com mais de 60 apartamentos: alguns idosos tiveram ali, pela primeira vez, uma casa digna. Assim ganhavam os idosos e voltavam prédios inteiros ao mercado.
A minha leitura
A conclusão do Fernando Santo é que é preciso “romper com a ideologia e olhar para os problemas com pragmatismo”. As casas novas não vão ficar baratas por decreto: o terreno, as regras, os impostos e a falta de quem construa empurram os preços para cima.
Encaixa no que já tinha ouvido ao Miguel Milhão sobre comprar casa e ao Saifedean Ammous sobre inflação e dívida.
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