Em resumo: a 17 de fevereiro de 2020, o Bento Rodrigues abriu o Primeiro Jornal da SIC a falar do Moussa Marega, o avançado do FC Porto que na véspera saiu do relvado em Guimarães depois de ouvir insultos racistas. A abertura correu as redes sociais em poucas horas.
Há aberturas de telejornal que passam sem ninguém dar por elas. Esta não foi uma delas. Na hora de almoço desta segunda-feira, o Bento Rodrigues entrou no ar com a cara do Marega por trás e, antes de qualquer notícia, disse ao que vinha.
“Começamos este jornal com o rosto do carácter, da coragem e da lucidez. A coragem de ser o primeiro futebolista em Portugal e um dos poucos do mundo a abandonar um jogo depois de ouvir insultos racistas.”
Seguiu-se o resto do texto: o carácter de enfrentar quem o tentou segurar em campo, sem perceber que aquilo já não era sobre futebol nem sobre o resultado, e a lucidez de saber que o gesto tem impacto nas ruas e nos bairros, na vida de quem ouve insultos racistas todos os dias.
O que aconteceu em Guimarães
Foi no domingo, 16 de fevereiro, no Estádio D. Afonso Henriques, na 21.ª jornada da I Liga. O Marega marcou o 2-1 do FC Porto aos 60 minutos. Aos 71, depois de ouvir cânticos racistas vindos da bancada, recusou-se a continuar. Jogadores das duas equipas tentaram convencê-lo a ficar e ele não cedeu. Saiu e entrou o Manafá. O FC Porto ganhou por 2-1.
O vídeo da abertura do Primeiro Jornal começou a circular logo a seguir. Este é um dos tweets que mais o espalharam:
O Bento Rodrigues já era conhecido pelas entradas fora do comum no Primeiro Jornal. Esta foi das mais partilhadas. E percebe-se porquê: um pivô a tomar posição sem rodeios, num caso destes, não é coisa que se veja todos os dias na televisão portuguesa.
O que aconteceu depois
O caso seguiu para os tribunais e para a justiça desportiva, e acabou sem condenações.
Em outubro de 2021, o Tribunal de Guimarães suspendeu provisoriamente, por um ano, o processo contra três adeptos acusados de discriminação e incitamento ao ódio e à violência (um quarto arguido já tinha tido a mesma solução em 2020). Cada um teve de pagar 1000 euros ao Estado, ficou um ano sem entrar em recintos desportivos, teve de se apresentar na polícia nos dias de jogo do Vitória e pediu desculpa publicamente ao Marega no jornal Desportivo de Guimarães.
Do lado desportivo, o Conselho de Disciplina da Federação castigou o Vitória, em maio de 2021, com três jogos à porta fechada e uma multa de 53 550 euros. O clube cumpriu os jogos, mas recorreu. Em novembro de 2021, o Tribunal Arbitral do Desporto anulou o castigo por não ter ficado provado que o Vitória promoveu, consentiu ou tolerou os cânticos. Em maio de 2022, o Tribunal Central Administrativo do Sul manteve essa decisão, embora tenha dado como provado que o Marega foi alvo de cânticos racistas repetidos.
Ou seja, os insultos ficaram provados e ninguém foi condenado por eles. Tira as tuas conclusões.
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